domingo, 24 de fevereiro de 2013

Medo

 
Não é vergonha ter medo; vergonha é deixar que o medo o domine a ponto de impedir que cumpra o que tem o dever de realizar. Um ato de valor, se é efectuado por quem desconhece o perigo que defronta, poderá ser belo nos seus resultados, mas só demonstra ignorância por parte de quem o pratica.
 
Tem outro merecimento, se o autor é perfeitamente consciente dos perigos a que se foi sujeitar. Assim, nem sempre a história tem sido justa, colocando no mesmo plano o insen­sato que o êxito bafeja e o homem de lúcido espíri­to que se arroja a atos heróicos, pelo cumprimento do dever que traça a si próprio.
 
Citam-se exemplos de homens ilustres que sentiam bem o medo, mas contra ele lutaram vitoriosamente. É o caso do Marechal Turenne, que tremia antes das batalhas e a quem se atribui a seguinte frase dirigida a si próprio: “Tremes, carcaça; mas mais tremerias se soubesses até onde quero levar-te”.
 
Ter medo é normalíssimo e fisiológico. A luta pela vida, os instintos de defesa que, sendo animais não deixam de ser humanos, supõem na sua origem esse sentimento do medo. Ele compõe-se de um conjunto de impressões e de sensações de que resultam actos reflexos involuntários.
Todo o trabalho do homem que se preza, consiste em trans­formar na maior medida possível esses atos re­flexos em atos dependentes da vontade, e regular estes para que se afastem das atitudes de bravura e se tornem úteis para a conservação individual sem comprometerem a própria dignidade.
Os vários incidentes da última guerra vieram dar ocasião a que efetuassem estudos interes­santes sobre o medo. Até então, apenas se empre­gava o método de auto observação, método com sérios defeitos, já porque a própria sensação do medo obscurecia a análise íntima do fenómeno na ocasião em que este se produzia, já porque a confissão do que se havia sentido era deformada por aquele sentimento de vergonha a que nos referimos.
 
Nes­ta guerra foi possível empregar outros processos de estudo, os que servem comummente em traba­lhos de fisiologia experimental, tendo-se verificado a existência de perturbações do funciona­mento de vários órgãos, mesmo naquelas pessoas que parecem mais indiferentes, por mais habituadas ou por disposição natural que estejam aos perigos que as ameaçam.
O escritor Lintier, diz o seguinte: “É preci­so viver em campanha como em qualquer outra cir­cunstância; é preciso que cada um se acomode a essa nova existência, por precária ou por amarga que seja. Ora, o que mais a perturba, o que a torna in­tolerável é o medo, o medo que estrangula.
É pre­ciso vencê-lo, e vence-se. De princípio o medo é uma coisa que se não concretiza… sua-se, treme-­se…, a imaginação amplifica-o. Não se raciocina: mas com o correr dos dias faz-se a distinção. O fumo é inofensivo. O sibilar do obus serve para prever a sua direcção.
Não se apresenta já o bus­to sem necessidade; também ninguém se abriga se­não quando é necessário. O medo deixa de domi­nar, é dominado. Tudo está nisto”.
 
O hábito de ver a morte de frente cria para o soldado a possibilidade de proceder tranquilamente aos serviços que dele se exigem, mesmo sob o perigo dos mais intensos bombardeamentos. Mas, na verdade, terá então desaparecido inteiramente a natural emoção de medo?
 
Essa emoção, além do fenómeno subjetivo, manifesta-se objectivamente por gestos, atitudes, perturbações do funcionamento de vários órgãos, particularmente da circulação. Para William James essas perturbações vêm imediatamente após a per­ceção do facto, e é o sentimento que delas te­mos que constitui a emoção. Mas sejam assim an­teriores, sejam consequências da sensação do medo, a verdade é que são constantes.
 
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Um notável cirurgião Francês do século XVI, Ambrósio Paré, tinha já notado que “o movimento das artérias era alterado e perturbado pelas paixões da alma”.
O ritmo do coração, a pressão ar­terial e o pulso são, pois, dignos de observação nos casos em que se pode prever o aparecimento da sensação do medo, ainda que este se não revele por gestos ou atitudes, e ainda mesmo que passe despercebido ao próprio paciente
O Dr. Pierre Menard, procedendo a estudos desta ordem durante a última guerra, viu que os combatentes da primeira linha têm a tensão arte­rial permanentemente baixa. Esta eleva-se quando o soldado passa da primeira para a segunda linha e torna-se normal na terceira linha.
Assim, o exa­me do pulso indica de certo modo a distância a que este soldado está do inimigo no momento em que é observado.
 
Observou-se também que as perturbações do pulso se tornam mais notáveis por ocasião de in­tensos bombardeamentos, diminuindo nos períodos mais calmos da guerra. Quando as granadas reben­tam com extrema frequência, aquelas perturbações acentuam-se ainda.
 
Em certos casos, quando a gra­nada rebenta a grande proximidade, há elevação considerável da tensão arterial mínima e abaixa­mento da tensão máxima, enfim modificações que se encontram em estados patológicos muito gra­ves e que não seriam compatíveis com a vida se fossem persistentes.
 
Tudo isto nos indica que há um medo consciente e também um medo inconsciente que só por estas perturbações orgânicas se manifesta. Diminuir o primeiro até quase o abolir é o resultado do hábito.
Mas a coragem consiste, na verdade, não em ter medo, mas sim em senti-lo e dominá-lo, não desertando do posto em que se está colocado e nele cumprindo inteiramente o que é dever cumprir.
Prof. Ferreira de Mira
 

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